A colcha de quadrados

Finalmente ela ficou pronta, sete anos depois. O projeto começou em 2012, depois da mudança para a casa nova. A menina de 12 anos quis pintar a parede de rosa e a mãe, sempre muito empolgada com trabalhos grandiosos, resolveu que ia fazer uma colcha de retalhos combinando com o quarto.

Na época a menina vibrou com as cores, a mãe vibrou com a linha de algodão maravilhosa que casava com seu ideal de projeto para mais de uma estação. E começou. Quadrado por quadrado durante o trajeto para para o trabalho, às vezes na volta, quando era horário de verão e ainda não estava muito escuro. A produção começou tímida, mas logo foi ganhando força e rapidez. Só que não por muito tempo. Depois de mais de 160 quadrados feitos, veio a dor no cotovelo e a lesão por esforço repetitivo. E a colcha parou, os quadrados guardados na sacola esperando pelo momento de serem unidos.

Alguns anos e sessões de fisioterapia depois, a mãe decidiu unir os quadrados. A colcha ficou linda, mas a essa altura a menina já tinha pintado as paredes do quarto de branco. Tudo bem, ainda dá certo, você pode estar pensando. Mas não. A menina de 12 era bem diferente da adolescente de 15, 16. E o rosa não cabia mais na vida da menina, só se fosse bem pastel. E a colcha tem até um pouco de pink…

Virada de ano, já estamos em 2019 e a menina está prestando vestibular, deve ir estudar no interior, vai morar fora. Vai precisar levar uma colcha, chegou a hora! – pensa a mãe, falta só fazer um acabamento na borda externa. Quem sabe ela não se anima, agora que é uma mulher de quase 18, talvez o pink não seja mais um problema. Ledo engano, ainda é. A mãe decide terminar a colcha assim mesmo, já estava nos planos desse ano finalizar alguns projetos inacabados como esse.

O que será feito da colcha ainda não sei. Por hora, vai ser novamente dobrada e colocada na sacola. Vai ser difícil passar para a frente, tem que ser alguém que goste de rosa a ponto de pedir para pintar a parede do quarto. Tem que gostar de pink. Porque tentar vender vai ser complicado, muito difícil precificar tanto tempo de trabalho, as sessões de fisioterapia e o coração da mãe, que quando olha pros quadrados lembra da menina de 12 anos.

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